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“A CURA ou ensaio sobre a regeneração e a emenda” – Cena 1

em: 2009/06/14 | por: | em: Cinema, Destaque, Escrita | Sem comentários em “A CURA ou ensaio sobre a regeneração e a emenda” – Cena 1 | lido: 1.729 vezes

Na continuidade da divulgação do meu trabalho criativo, trago-vos agora a Cena 1 do meu guião, “A CURA ou ensaio sobre a regeneração e a emenda“. É um drama, centrado em duas pessoas com passados complicados, que se conhecem em alturas complicadas das suas vidas e, contra a sua própria vontade, desenvolvem uma relação amorosa que sabem ter pouco ou nenhum futuro. A cena que vos trago é uma espécie de prólogo, uma vez que a cena seguinte já se passa 4 anos depois, e é uma cena extensa, intensa e complicada (e cara) de se fazer, mas que marca o tom do filme e define todos os obstáculos emocionais que uma das personagens, a Dra. Ana (advogada que se apaixonará pelo seu cliente, acusado do assassinato da sua mulher), terá de superar ao longo do filme. O resto do filme é composto basicamente com cenas de diálogo, daí esta cena ter de ser tão intensa e visualmente forte, para ser lembrada até ao final.

Apenas um aviso antes de a começarem a ler:

O TEXTO QUE SE SEGUE CONTÉM LINGUAGEM E DESCREVE SITUAÇÕES SUSCEPTÍVEIS DE FERIR A SENSIBILIDADE DE ALGUNS LEITORES.

1. EXTERIOR – AUTO-ESTRADA – DIA

Fade in

Estamos na berma de uma auto-estrada. Vários carros passam apressadamente nas várias faixas de rodagem. A câmara faz um travelling e posiciona-se sob a faixa central.

Aproxima-se um carro ligeiro com um homem ao volante e uma mulher no lugar do passageiro. Passam mesmo por baixo de nós.

Estamos agora no interior do carro. A mulher é a Dra. Ana, e o condutor é o marido, Paulo. Ela tem 26/27 anos, ele tem mais 2. Ela veste formalmente, conjunto saia/casaco, camisa sóbria e usa o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. Ele veste uma camisola e calças de ganga. Vão calados, ele sério e de ar carregado. Ela sorri para ele, toca-o ao de leve no braço com as pontas dos dedos, procurando chamar-lhe a atenção. Ele acusa o toque, mas permanece de semblante carregado e de olhos fixos na estrada. Ela quebra o silêncio.

DRA. ANA

Estou grávida.

Ele olha para ela sem mudar de expressão. Ela interrompe o sorriso.

DRA. ANA

Que se passa?

PAULO

É meu?

Ela mostra-se surpreendida e chocada com a pergunta. Ele mantém a expressão séria e volta o olhar para a estrada.

DRA. ANA

O que é que se passa, Paulo?

Ele olha-a nos olhos.

PAULO

Diz-me tu.

Volta a olhar em frente.

DRA. ANA

De que é que tu estás a falar?

PAULO

Eu vi-vos.

Ela continua perplexa a olhar para ele. Ele continua.

PAULO

No teu escritório hoje de manhã.

Ela tem agora uma expressão de derrota.

DRA. ANA

Não é aquilo que parece.

Ele exalta-se e consegue olhá-la nos olhos.

PAULO

E o que é que parece?

Apesar de ter os olhos rasos de lágrimas, ela mantém a voz num tom muito calmo, triste, mas firme.

DRA. ANA

Não interessa. Nada é o que parece.

PAULO

A mim, pareceu-me que lhe estavas a fazer um broche.

Ela faz uma pausa, baixa os olhos para o colo. Quando os levanta e olha em frente continua.

DRA. ANA

Eu precisei de o fazer.

Ele dá uma gargalhada.

PAULO

Porque é que não lho mordeste, como me fizeste a mim uma vez?

DRA. ANA

Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

PAULO

Pois não, eu nunca te forcei a nada.

DRA. ANA

E o que é que chamas a isto?

PAULO

A isto o quê?

DRA. ANA

A esta discussão. Eu ganhei o meu primeiro caso hoje, percebi que estou grávida, que é aquilo que ambos queríamos, quis dar-te a novidade e partilhar essa alegria contigo...

PAULO

Qual alegria? Eu vi aquele gajo a enfiar-te a pila na boca hoje de manhã e vens-me falar em alegria? Quantos maridos conheces que ficam alegres quando descobrem que lhes puseram um par de cornos?

Ela exalta-se.

DRA. ANA

Pára! Não confundas as coisas. Ele nunca me fodeu.

Serenamente, ele continua.

PAULO

Para mim, vai dar ao mesmo.

Ele tira um charro já enrolado do bolso da camisa e coloca-o entre os lábios. Vai com mão ao bolso das calças à procura do isqueiro, sempre com os olhos na estrada e a outra mão no volante. Ela olha-o.

DRA. ANA

Julguei que tinhas deixado essa merda. Sabes que só o cheiro me deixa mal disposta.

Ele não responde e continua à procura do isqueiro. Ela grita-lhe.

DRA. ANA

Estou a falar contigo!

Tira-lhe o charro da boca. Ele sacode-lhe a mão e empurra-lhe o corpo de encontro à porta do lado dela. O charro cai-lhe junto aos pés, entre os pedais.

PAULO

Foda-se!

Ele ergue a mão no ar, fechada num punho e olha-a nos olhos. Ao ver a expressão de medo no olhar dela, volta a abrir a mão e baixa-a. Volta o olhar para a estrada.

PAULO

A partir de agora, eu também meto na boca o que quiser.

Ela encosta a cabeça ao vidro, com uma expressão de derrota enquanto duas lágrimas lhe descem o rosto. Ele solta o cinto de segurança e baixa o peito de encontro ao volante, sempre com o olhar na estrada, e tenta encontrar o charro com a mão. Passa com os dedos muito perto, de um lado e de outro, mas não lhe toca. Sobe o tronco e procura-o com o olhar. Neste momento, um carro passa-o pelo lado esquerdo e vem para a faixa de rodagem em que eles estão. Quando levanta o olhar ele apercebe-se da aproximação.

PAULO

Foda-se!

Ele trava a fundo e volta a acelerar, virando o volante e afastando-se para a faixa da direita, não reparando que, nessa faixa, se aproxima um camião que lhe bate na traseira do lado direito. O carro faz um peão e vai de encontro ao rail da auto-estrada. Ao bater-lhe, o carro levanta vôo por cima e rebola pela berma, até embater numa árvore. Aproxima-mo-nos agora lentamente do carro que está virado com as rodas para cima. Através do vidro do passageiro vêmo-la ainda no seu lugar, agarrada ao cinto. O vidro do lado do condutor está partido. o corpo dele está do lado de fora, debaixo do carro, apenas com as pernas à vista.

Fade Out

CORTE DE CONTINUIDADE

Fade in

Vêmo-la de costas, ajoelhada em frente ao carro, a poucos metros de distância. A câmara move-se lentamente, num circulo à sua volta, até ficar de frente para ela. Por detrás dela, na berma da auto-estrada, notamos a silhueta de uma multidão que se junta para observar. Por entre os vários carros parados destacam-se as luzes dos carros da Policia e do I.N.E.M., contra o azul cinzento do céu de fim de tarde. Ela está aparentemente calma, a fumar o charro que ele ia acender.

Fade Out

O guião está completo, registado, e tem sido enviado para várias produtoras Portuguesas (aquelas que o aceitaram ler).

Usem o formulário abaixo para fazerem comentários, criticas ou observações que achem oportunas. Podem também usá-lo se pretenderem algum esclarecimento ou tiverem curiosidade em ler o resto do guião (de preferência se exercerem a actividade cinematográfica).

Obrigado pela vossa atenção.

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