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“Nada Tenho De Meu” – A Utopia da Liberdade.

em: 2014/02/24 | por: | em: Crítica, Destaque, Literatura, Televisão | Sem comentários em “Nada Tenho De Meu” – A Utopia da Liberdade. | lido: 3.606 vezes

Antes de mais, devo dizer que sou fã do “José e Pilar“, do Miguel Gonçalves Mendes, e era com expectativa que aguardava o seu próximo projecto. E ele aí está, em várias plataformas, pronto a ser consumido de um só fôlego (ou dois, no caso do livro + DVD). Trata-se, para já, do mais estranho, inebriante e viciante documentário que eu já vi. Série de televisão em 11 episódios de 8 minutos, pode ser vista na RTP2 (apesar de já só faltar  exibir 1 episódio), no MEO Kanal nº 800009, em todos os canais Sapo ou, qual cereja no topo do bolo, nas lojas Fnac, num magnifico conjunto de livro + DVD com a série completa.

Com co-autoria dos escritores brasileiros Tatiana Salem Levy e João Paulo Cuenca, a série leva-nos numa viagem ao Extremo Oriente, para uma troca de experiências com artistas e pensadores de Macau, Hong Kong, Vietname, Camboja e Tailândia. Mas, a verdadeira viagem é em busca de identidade e, desta premissa, nasce o mais fascinante dos estudos psicológicos e filosóficos originado pelo confuso contraste entre o que é real ou ficção, imitação ou cópia.

O Oriente tem, obviamente, um peso enorme na narrativa, além da expectativa da distancia ser o factor decisivo do conceito de Liberdade. O livro começa com um texto de Gonçalo Cadilhe cujo título é “Liberdade é não ter nada de meu“. Esta busca, pela liberdade, confunde-se com o conceito de fuga, e acaba por ser Utópica, porque os protagonistas não conseguem deixar de ser eles próprios, restando-lhes a identidade, que será sempre aquilo que os separa dessa mesma liberdade.

E é aqui, neste twist, que a série ganha renovado interesse. Os protagonistas, uma projecção dos autores da série, têm planos B, mais ou menos secretos, para a eventualidade da fuga não ser concretizada. Se quisermos, é uma espécie de “Inception” do cérebro, uma matrioska humana em que identidades se cruzam, se projectam e se mantém nos seus interlocutores, diluindo nestes as suas personalidades e deixando que o meio ambiente estranho se sobreponha e lhes confiram nova identidade.

“Nada Tenho De Meu”, sendo um estudo filosófico, demora mais tempo a fazer perguntas do que a respondê-las ( e no fim, não temos bem a certeza se alguma coisa foi respondida, mas esse não é o propósito da viagem). Aqui, o que é importante é que o espectador se reveja e identifique nestas dúvidas existenciais através dos pontos de contacto com a realidade. Questionando-se, os autores estão na verdade a questionar o espectador e a desafiá-lo a fazer também a sua busca, despindo-se até ao essencial.

Em termos visuais, a série é absolutamente irrepreensível. Das imagens de arquivo, imagens captadas de forma amadora ou exigentes planos conceptuais, tudo ajuda à incerteza do espectador, e é ‘amarrado’ com um trabalho gráfico que lhe dá consistência e unidade. A sua opção pelo áudio bilingue ajuda a dar-lhe profundidade na narrativa, acentuando a distancia à nossa realidade e confirmando as incertezas dos protagonistas.

O livro, objecto magnifico, leva tudo isto um pouco mais longe, além de consolidar e prolongar na memória a quantidade de informação que é ‘despejada’ na série. A narrativa da série é-nos aqui apresentada no formato de foto-novela, com um trabalho gráfico irrepreensível e que confere união entre os dois formatos. Mas isto é ainda complementado com alguns extras de luxo, que vão dar ainda mais profundidade a este objecto: o texto de Cadilhe, o prefácio de Valter Hugo Mãe (que põe mais achas na fogueira), ou os vários textos dos autores efectuados durante as suas viagens àqueles destinos e que eram já um esquiço muito forte do que seria este projecto. Por último, devo referir que, enquanto objecto, este conjunto é maravilhoso, desde a belíssima encadernação com motivos orientais, até à qualidade do papel e impressão, que lhe conferem um cheiro forte que acentua a estranheza. Olhá-lo, tocá-lo e cheirá-lo é um festim para os sentidos.

Resumindo, “Nada Tenho De Meu” é um magnífico projecto, estranhamente útil e provocador, arrojado nos seus formatos e nobre nas suas intenções. Comprem-no, saboreiam-no e sintam-no, porque é uma experiência única no nosso panorama cultural. À semelhança de “José e Pilar”, “Nada Tenho De Meu” deixa-nos curiosos e ansiosos pelo próximo projecto de Miguel Gonçalves Mendes, aquele onde finalmente iremos descobrir (ou não) “O Sentido Da Vida“.

Classificação: 5/5

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