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“Os Vampiros”, de Filipe Melo e Juan Cavia – Crítica.

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“Os Vampiros”, de Filipe Melo e Juan Cavia – Crítica.

em: 2016/06/03 | por: | em: Arte, Crítica, Destaque, Literatura | Sem comentários em “Os Vampiros”, de Filipe Melo e Juan Cavia – Crítica. | lido: 1.520 vezes

Antes de mais, quem conhece este cantinho sabe que eu sou um fã do Filipe Melo e do Juan Cavia. Já antes escrevi com entusiasmo sobre alguns dos seus livros, mas acho que nunca parti com tanta expectativa para um livro deles como neste caso com “Os Vampiros“. A razão é simples, antes de ler o primeiro livro de Dog Mendonça & Pizzaboy, não tinha grande conhecimento da carreira do Filipe, e portanto era apenas mais um livro de BD, de um género que me interessava, sendo que nos volumes seguintes essa expectativa era condicionada pelo facto de serem sequelas e já antever o terreno que pisaria naquelas páginas. Aqui, n’ “Os Vampiros”, para além de esperar um bom livro, porque o Filipe e o Juan não sabem fazer nada mal, era um terreno novo, uma estória nova, com personagens novas e num tom novo. A expectativa de haver um novo universo fascinante em que iria imergir ao longo de 200 e tal páginas, guiado pelo Filipe Melo e pelo Juan Cavia, era composta sobretudo de entusiasmo. E, a única coisa que para já posso dizer acerca disso, é que esse entusiasmo cresceu quando cheguei à última página.

“Os Vampiros” passa-se na Guiné em 1972, em plena guerra colonial, quando um grupo de soldados portugueses é destacado para uma operação secreta no Senegal. À medida que vão sendo consumidos pela paranóia e pelo cansaço, esta missão aparentemente simples vai transformar-se num verdadeiro pesadelo. Embrenhados na selva, estes homens terão de confrontar sucessivos demónios – os da guerra e os que trouxeram consigo.

Esta é a premissa, impressa na contra-capa deste magnifico objecto. E vamos começar por aí, pelo objecto: a Tinta Da China está de parabéns pelo trabalho colocado no ‘objecto’. O livro é belíssimo, de capa dura e tamanho considerável, com um peso e acabamento a que não estamos acostumados neste tipo de livro (principalmente se estivermos familiarizados com edições americanas de BD). Aliás, vamos esquecer-nos de que estamos a falar de BD, isto está mais próximo de uma novela gráfica, de um livro ‘a sério’ ou, se quisermos e porque aqui existe a fortíssima componente da imagem, de um filme a que nem falta o som. E não vamos fazer isso apenas porque sim, mas porque este trabalho do Filipe e do Juan assim o exigem.

O Filipe é um exímio contador de estórias, com décadas de referências e memórias que canaliza para o que nos quer contar, enriquecendo a narrativa e manipulando, no bom sentido, a experiência que o leitor / espectador está a ter ao desenrolar o novelo desta narrativa. O que aqui começa por impressionar, é a mudança de tom em relação aos livros anteriores, e principalmente a gestão de tempos da estória. Nota-se que houve aqui uma liberdade, merecida e oportuna, para gerir o espaço das páginas de uma forma diferente: nas aventuras anteriores, e porque eram aventuras, havia uma cadência de situações e piadas muito mais rápida, com menos pausas no ritmo, sendo que uma ou outra passagem pareciam mais abruptas e consumidoras de pedaços da linha temporal. Não que isto fosse mau, ou menos bem conseguido, era apenas uma exigência do género.

Aqui, existe um ritmo lento e contemplativo, que empresta à narrativa um tom melódico e melancólico que nos vai orientando pelas páginas de uma forma controlada. O Filipe sabe exactamente como nos quer envolver, preparando-nos meticulosamente para as surpresas que nos esperam. Meticulosa é também a forma como a estória se desenvolve, desde a apresentação das personagens, ao crescendo de situações bizarras que nos vão lentamente levando para fora de pé, conseguindo a proeza de nos levar pela mão, fazendo-nos sentir seguros, para depois nos tirar o tapete quando lhe é mais conveniente. Há aqui, nestas páginas, uma forma de contar estórias clássica, digna dos melhores filmes, que o músico de jazz tão bem conhece e entrega, para depois improvisar sobre ela. Lembram-se de eu dizer que não lhe faltava som? Pois, há o do jazz na composição da narrativa, e o da canção de Zeca Afonso que empresta o título ao livro, servindo-lhe de farol para não perder o horizonte à estória.

Mas onde o livro me consumiu foi na poesia. Sim, há aqui uma esmagadora e inusitada poesia. Foi por isso que eu disse que tinha terminado o livro ainda mais entusiasmado do que quando comecei. Encontrar poesia num livro destes, com esta premissa, era algo que eu não estava francamente à espera. E o pior (ou melhor, o melhor) é que só damos por ela no fim, quando percebemos que ela estava lá desde o inicio (talvez até nos livros anteriores), que nos embalou e consumiu lentamente só para nos esmagar no final. Como autor, o Filipe adiciona aqui uma componente fortíssima ao seu trabalho, calculada, manipuladora e surpreendente.

Claro que tudo isto só funciona pela forma como Cavia ilustra magistralmente a narrativa. Se os desenhos sempre foram excelentes, aqui o acabamento adapta-se à estória conferindo-lhe uma autenticidade que a fortalece e aumenta. Os desenhos limpos de Dog Mendonça adquirem aqui uma natural sujidade, onde os traços não se escondem, ofuscando e distribuindo a luminosidade, maior ou menor consoante a linha narrativa ou a emoção que nos quer transmitir. Há directores de fotografia que não conseguem transmitir tanto em cada imagem. Nem com tanta naturalidade.

A gestão dos tempos que o Filipe conferiu à narrativa é fortalecida pelo desenho de Cavia. Há muitas e muitas páginas em que não há um único balão de diálogo, mas em que nos perdemos como se estivéssemos a ler o mais complexo dos romances. Cavia  consegue aqui um trabalho de cinematografia exemplar, multiplicando planos e pontos de vista, mostrando-nos vazios cheios de tudo, com vinhetas em que só vemos mato, mas onde nos apetece contar a folhagem. As cenas de acção são de uma intensidade e clareza extremas, com o número certo de planos e pormenores que nunca nos fazem perder a noção da narrativa e do espaço em que decorre. Há muitos filmes que precisavam de ter tido um storyboard assim.

Concluindo, porque estou a abusar da vossa paciência e vocês têm de ir a correr ler o livro: “Os Vampiros” é um livro belíssimo, bom como o caraças, que surpreende tanto, que quando o acabamos queremos voltar logo ao inicio e reviver tudo de novo. Surpreende pelo salto qualitativo, em todos os aspectos (gráficos e narrativos), do Filipe e do Juan, que merecem mais do que papel para contar muitas mais estórias. Eu, agradecido, cá estarei para as ler, ver e ouvir.

Classificação: 5/5

Fiquem com algumas páginas e com a lista de datas e lugares por onde o Filipe e o Juan andarão a distribuir riscos.

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