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“Joker” – Poster e Teaser Trailer.

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Fantasporto 2019 – Vencedores e horários das sessões dos filmes premiados.

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“The Haunting Of Hill House” – A obra-prima de Mike Flanagan.

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A Floresta Das Almas Perdidas – Terror Luso, Melancólico e Poético.

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“The Strain” – Do(s) Romance(s) à Série.

em: 2014/08/04 | por: | em: Televisão | Sem comentários em “The Strain” – Do(s) Romance(s) à Série. | lido: 6.193 vezes

Li “The Strain” no final de 2009, logo após a saída da edição portuguesa, e desde cedo foi óbvio que esta saga vampírica de Guillermo Del Toro e Chuck Hogan seria adaptada ao cinema ou à televisão. Dos dois meios, e dada a riqueza, dimensão e complexidade da estória, a televisão seria a escolha mais acertada. Foi pois com agrado que, há cerca de um ano e pouco, recebi a notícia de que essa adaptação iria mesmo acontecer. O meu medo era que alterassem demasiado o material base, que eu considero perfeito. Com Del Toro e Hogan envolvidos como criadores, argumentistas e produtores (sendo que Del Toro também dirigiu o episódio piloto), estaria tudo encaminhado para que a adaptação fosse o mais fiel possível. Agora, depois de três episódios, já é possível fazer um primeiro balanço, apontar as grandes e pequenas diferenças, e tentar perceber se o romance ganhou ou perdeu com esta adaptação. É óbvio que, para fazer esta análise, vou falar de tudo o que aconteceu até ao final do terceiro episódio, mas não irei desvendar nada do que está no livro para além desse ponto. Sendo assim, se ainda não viram os três primeiros episódios, parem de ler, vão vê-los e regressem. Com sorte, vão ficar com vontade de ler o livro.

Vou começar pelas grandes diferenças, que são três. A primeira, acontece logo nos primeiros minutos da série e é a mais negativa: a primeira cena. Uma das coisas que adorei no livro foi o clima de tensão e mistério existente desde as primeiras páginas, em que Del Toro e Hogan desfiam lentamente a narrativa, sempre com o leitor lado a lado com os personagens. Ora, o livro começa com um capítulo da infância de Setrakian, em que a avó lhe conta uma estória assustadora. Depois, um pequeno capítulo de página e meia com as últimas gravações de cabine feitas pelo comandante Redfern: a comunicação com a torre de controle na aproximação à pista e com a tripulação para baixar o trem de aterragem. Logo a seguir, o avião já está no solo com tudo apagado e incomunicável. E este é o mistério que ocupa cerca de um quarto do primeiro livro. Saber o que se passa e o que aconteceu. Na série temos uma péssima primeira cena, em que estamos dentro do avião, vemos os passageiros e o ataque do mestre. Portanto, quando não há resposta nem sinal de vida dentro do avião, nós já temos uma ideia do que aconteceu, temos mais informação do que os personagens e a tensão e o mistério são menores. O pior é que essa cena também não acrescenta absolutamente nada à estória, sendo, além de prejudicial, desnecessária. Um a zero para o livro.

A segunda grande alteração é o eclipse. Nos acontecimentos da série, e cronologicamente em relação ao livro, o eclipse teria de ter acontecido entre a parte final do primeiro episódio e o final do segundo. No livro, este fenómeno é o que inicia a propagação do vírus, as mudanças nos corpos dos hospedeiros. É durante o eclipse que acontece, por exemplo, o primeiro ataque fora do avião, que vemos no final do primeiro episódio.  Por terem mudado a localização temporal do eclipse na série, mudaram também a localização desse ataque.

No livro ele acontece na pista de aterragem, com a primeira pessoa que chega ao avião ( que não é a mesma da série, mas já lá vamos), uma vez que devido à ocultação do sol a pista está quase às escuras. É também durante o eclipse que os corpos desaparecem da morgue. Portanto, a estirpe serve-se deste fenómeno natural e da distracção que ele proporciona para ocultar as suas operações. Na série, o eclipse acontecerá no episódio seis, chamado “A Ocultação“, e ainda é cedo para perceber que acontecimentos é que serão ocultados aqui, uma vez que a estória já estará adiantada e a epidemia já será publica. Se esta alteração será ou não benéfica para a série, teremos de esperar para ver.

Se estiverem a pensar ‘ele disse que não ia falar de coisas que não aconteceram na série e já está a falar de um eclipse que vai acontecer no episódio seis‘, devo lembrar que este acontecimento aparece em todos os trailers da série e até nos posters e banners, como a primeira imagem que ilustra este artigo (reparem no olho).

A terceira alteração importante é Jim Kent. Achei estranho que este personagem fosse interpretado pelo actor mais conhecido do elenco, Sean Astin, uma vez que, no livro, na última cena do terceiro episódio, o ataque de Redfern na cave do hospital, Jim fica ferido e infectado quando se aproxima do comandante. Além disso, na série a personagem é mais complexa: o caso da doença da mulher não existe no livro e penso que nem é ele que deixa que o armário seja retirado do aeroporto, apesar de estar a trabalhar com a organização de Eldritch Palmer. Quer-me portanto parecer que Jim terá mais importância na série do que aquela que tem nos romances. Se assim for, aqui o ponto poderá ir para a série, mas teremos de esperar para ver.

Estas são, para já as grandes alterações da série em relação ao livro, aqueles que de alguma forma alteram a percepção e acompanhamento da estória. Mas há muitas mais pequenas alterações, que não terão grande importância no desenrolar dos acontecimentos, apesar de proporcionarem uma pequena mudança de tom entre o livro e a série.

Uma das coisas de que tenho sentido falta na série são os interlúdios sobre o passado de Strakian e a sua relação (ou luta) com o mestre. Desde o capitulo inicial da sua infância passando pela sua estadia no campo de concentração de Treblinka, servem para dar profundidade à personagem e uma dimensão épica à estória. Certamente que essa jornada será abordada mais à frente, mas nos livros está mais bem estruturada.

Logo no inicio do primeiro episódio, as primeiras pessoas a chegar perto do avião são funcionários da torre de controle, o que não faz muito sentido ( um deles nunca sequer tinha visto um de perto, chegando a dizer que parecia um edifício com asas). No livro, a primeira pessoa a chegar ao avião é uma operadora de um daqueles carros de transporte de bagagens, o que será mais próximo da realidade. É também, mais tarde, a vítima do primeiro ataque que presenciamos no livro, durante o eclipse e junto à pista, mais afastada do avião. No episódio é feita uma referência a haver uma janela aberta, mas devido a já termos visto o que estava no interior do avião, não passa disso e é desnecessária e inconsequente. No livro, nota-se movimento no interior do avião através dessa janela, o que aumenta a tensão naquele momento.

No final do primeiro episódio assistimos ao regresso de Emma a casa, o que também não faz sentido, pois no segundo episódio os restantes corpos ainda estão na morgue. Percebe-se que era necessário, devido à divisão em episódios, terminar o primeiro com um gancho narrativo importante, mas o facto de ter sido este mostra que a série tem prioridades diferentes do livro, em que o rigor narrativo e a verosimilhança são o mais importante.

No caso de Ansel Barbour, também há uma pequena alteração que pode parecer insignificante, mas não é. No livro, os seus cães são São-Bernardos, na série são Pastores-Alemães. Mais um episódio ou dois e vão perceber porque assinalo esta diferença.

Mas a série, devido ao formato, também permite introduzir algumas alterações que resultam muito bem e têm um impacto maior do que no livro. A primeira cena do terceiro episódio (imagem anterior) é brilhante, quer pelo resultado gráfico, quer pela economia narrativa que permite em muito pouco tempo esclarecer algumas dúvidas.

Na generalidade, a série consegue estar à altura do livro, ilustrando na perfeição todo o imaginário de Del Toro. Poderia ser ligeiramente mais fiel ao livro, no que diz respeito à cronologia dos acontecimentos e construção narrativa, que no romance era perfeita, mas essa falha é compensada pela excelente caracterização e efeitos que traduzem em imagens todo o horror da premissa. Nesse aspecto, tudo está irrepreensivelmente fiel ao livro.

No entanto, e porque é disso que se trata este artigo, recomendo a leitura do(s) livro(s). A sua narrativa é perfeição absoluta, seja em termos de tom, estrutura ou verosimilhança. A trilogia escrita está mesmo ao nível do melhor que Del Toro já nos proporcionou no cinema. Vejam a série até ao fim e depois atirem-se ao(s) livro(s) (escrevo assim porque só o primeiro corresponde à primeira temporada). Acreditem que vai valer a pena.

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